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Especial: F-Truck completa 20 anos da primeira prova

Foto: Divulgação
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Realizar uma corrida de caminhões no Brasil na década de 90 já poderia ser considerado um feito marcante. Mas mais especial ainda é ver que essa pequena semente, lançada no dia 23 de abril de 1995, se tornou uma grande e frondosa árvore que hoje é uma das mais bonitas e cobiçadas do cenário brasileiro. Curiosamente, o surgimento da Fórmula Truck aconteceu em Cascavel, situada no Oeste do Estado do Paraná, justamente uma cidade que revelou, e continua a revelar, nomes para o esporte a motor nacional e internacional. São os casos de Pedro e David Muffato, Diogo Pachenki, Jaidson Zini, todos na Truck, e muitos outros que correm em várias outras categorias por todo o planeta.

Naquele final de semana de abril o visionário Aurélio Batista Félix – no dia seguinte, 24 de abril, completou seu 37º aniversário – deu o primeiro passo para realizar o sonho de ver nas pistas uma categoria brasileira de caminhões. A caravana, composta por cinco carros e quatro caminhões, carregando os caminhões de corrida e equipamentos, deixou a cidade de Santos rumo a Cascavel. No carro de Aurélio estavam ele, a mulher Neusa, hoje presidente da categoria, as filhas Danielle e Gabrielle e o recém-nascido Aurélio Jr. Hoje, Dani e Júnior fazem o show de caminhões, que antes era realizado pelo pai, falecido em 5 de março de 2008. O grupo passou em São Paulo, pegou outro caminhão e seguiu numa viagem de cerca de 15 longas horas.

Um dos integrantes da histórica caravana era Jefer Favoretto, que assim como a maioria, não entendia nada de automobilismo e nem da organização de eventos. Jefer conta que justamente por isso eles contrataram um grupo do Rio de Janeiro, comandado por Julio Caio, para cuidar de toda a montagem da estrutura necessária.

“Na verdade todos os envolvidos na corrida eram ou tinha sido caminhoneiros. Aurélio Félix, Renato Martins, o Macarrão (Eduardo Landim Fraguas). O Gino Pica era o único que já era empresário, mas também tinha sido caminhoneiro. O quinto piloto era o Iris Neri, que era de Santos e também tinha ligação com os caminhões“, explica Jefer.

O grupo, que chegou a Cascavel na madrugada de sexta-feira, pela manhã já aprontava os brutos para aquele que seria o primeiro treino da história da Fórmula Truck. Logo nos momentos iniciais, Aurélio bateu na Curva 1. Como eram somente cinco caminhões preparados para correr, ele teve de buscar alguém que mexesse com fibra de vidro na cidade do oeste paranaense. Achou, e sábado cedo lá estava ele na pista para o classificatório.

Começou o treino e, mais uma vez, Aurélio bateu no mesmo lugar, que eles passaram a chamar de Curva do Aurélio. Nova peregrinação, retorno ao especialista em fibra de vidro e domingo cedo, depois de a equipe virar mais uma noite trabalhando, lá estavam os cinco na pista. Para não deixar o grid tão vazio nesta primeira apresentação, eles convidaram outros dois caminhoneiros somente alinhar, dar a largada, completar uma volta e retornar aos boxes. Com isso, o grid teve sete participantes, pois Remo Pica, filho de Gino, e Olices Rossi também largaram.

“Cinco caminhões seria pouco para pelo menos formar o grid e convidamos esses outros dois para dar um pouco de volume à exibição. Um largou e deu somente uma volta e o outro deu duas, mas não atrapalhou em nada, pois a distância dele para os pilotos era muito grande“, explica Jefer.

Junto com a primeira prova da futura Fórmula Truck, para ajudar a atrair o público, foi contratado um grupo de samba chamado Razão Brasileira. Nem tanto o gosto pela música, mas muito mais a paixão pelo automobilismo foi a principal responsável por levar, segundo os jornais da época, 12 mil pessoas ao Autódromo de Cascavel. Eles viram a vitória de Aurélio, como haviam combinado os cinco pilotos, pois cada um ganharia uma das corridas inaugurais. Aurélio e Macarrão andaram de Volvo, Renato e Gino de Scania e Iris de Mercedes-Benz.

“Quando tudo terminou tivemos alguns problemas com o pessoal que tinha organizado e decidimos que na próxima nós mesmos faríamos tudo. E foi isso o que aconteceu em Londrina, em Tarumã e em Goiânia, onde completamos a temporada de exibições, pois a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) não queria homologar a categoria. Por esse problema sempre estávamos munidos de uma liminar e acompanhados de um advogado“, diz Jefer, que já fez um pouco de tudo na Fórmula Truck, onde em muitas das exibições ganhou status de diretor-adjunto de prova.

A corrida em Londrina, no Paraná, teve nove caminhões e a vitória acabou com Renato Martins, hoje proprietário e chefe de equipe da RM Competições, uma das mais fortes da categoria. Em Tarumã, no Rio Grande do Sul, e em Goiânia, em Goiás, o público já tinha um mínimo de conhecimento, pois um ano antes acontecera exibição de uma categoria europeia de caminhões. A cidade de Viamão viu 11 brutos e Goiânia 13 da Fórmula Truck. Foi justamente na pista gaúcha que apareceu Sérgio Drugovich e a coisa começou a ficar séria, como explica Jefer.

“O Drugovich tinha ido a Londrina e convencido o Aurélio que poderia participar. Aí ele apareceu com um Scania zero quilômetro. Diferentemente de todos os outros, ele tinha know how do automobilismo e não aceitou nossos acordos de que faríamos disputas para empolgar o público e que a vitória ficaria com quem tínhamos definido. Aí ele saiu na frente, andou forte e só não ganhou por ter batido no barranco. Em Goiânia, a vitória seria do Gino, mas ficou com o Drugovich“.

Depois dessa temporada de exibição, em 1996 a CBA homologou a categoria. Mas este foi somente o primeiro passo, pois os responsáveis pela Fórmula 1 alegaram que os caminhões estragavam a pista de Interlagos, que desde a década de 1990 recebe os mais velozes carros do mundo, e tentaram proibir as corridas da Truck justamente no templo do automobilismo nacional.

Munido de um laudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), a organização da Fórmula Truck comprovou que os caminhões desgastavam menos a pista do que os carros de Fórmula 1. Daí em diante não teve mais jeito, pois a categoria cresceu, ganhou milhares de torcedores em cada etapa e se tornou grande atração por todo o Brasil. Justamente a curiosidade de ver de perto os mais velozes caminhões do mundo, de acompanhar o show dado antes das corridas, enfim, participar da grande festa que a Truck promove, a categoria se tornou a mais popular da América do Sul, com média de público muito superior às outras do continente.

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